Apesar de vários países europeus defenderem a paralisação do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia devido à falta de uma política mais clara de proteção ambiental do Brasil, e a iminente mudança de governo dos Estados Unidos, o ministro da Economia, Paulo Guedes, preferiu o pragmatismo e garantiu que não haverá mudanças na pauta internacional e no processo de abertura do país prometido em campanha.

 

"A agenda de abertura prossegue inabalada", garantiu Guedes, nesta sexta-feira (06/11), durante conversa com economistas do Itaú Unibanco no evento virtual Macro Vision 2020. Segundo ele, o Brasil entrou atrasado no baile da globalização enquanto Estados Unidos e China "dançaram de rosto colado" durante décadas. Mas agora, o país "vai dançar com todo mundo" e não vai deixar o "fator político" interferir nas relações comerciais.

"Particularmente, em relação aos Estados Unidos, nós estávamos e continuaremos trabalhando com todo mundo. Vamos continuar nosso relacionamento. Nós vamos dançar com todo mundo, porque chegamos atrasados na festa", afirmou em resposta ao questionamento da iminente vitória do democrata Joe Biden sobre o republicano Donald Trump na corrida para a Casa Branca. "Agora, não vou superestimar o fator político quando ele não para para ser superestimado", acrescentou.

O ministro reconheceu que a pandemia de covid-19 atrasou essa agenda, mas ressaltou que o acordo do Mercosul com a UE e com a Associação Europeia de Livre Comércio (Efta) foram concluídos no ano passado em poucos meses. Ele destacou que "a turma toda" continua negociando com Canadá, Japão e Coreia do Sul. "Esses são movimentos inequívocos. Começamos aceleradamente a pauta internacional, mas fomos atingidos pela covid", lamentou. Guedes disse, no entanto, que a agenda ambiental acaba sendo uma espécie de desculpa para países europeus adotarem um "protecionismo disfarçado".

Estratégia

Dentro da estratégia, o ministro da Economia disse que a ida do ex-secretário de Comércio Exterior, Marcos Troyjo, para a presidência do Banco dos Brics, e, em breve, a do secretário especial de Produtividade, Emprego e Produtividade da pasta, Carlos da Costa, para a presidência do BID Invest, braço de investimento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), devem ajudar no processo de integração regional esperado pelo governo, atraindo investimentos para projetos de infraestrutura. "Estamos com Carlos da Costa indicado para o BID Invest, e, para tudo isso, temos planos de escoar a produção de grãos do Centro Oeste cortando a Transperuana para chegar à China em 12 a 13 dias mais rápido", disse. Ele citou também outros projetos para aumentar o fluxo de negócios com outros países.

 

"Nossa pauta é voltar para o futuro. Nosso plano é uma economia de mercado", afirmou Guedes. "Temos uma pauta de integração transnacional e de abertura", reforçou. Contudo, admitiu que, para reduzir tarifas de importação para os padrões de países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), de 4%, em média, o país precisa reduzir o custo Brasil, com reforma tributária e "um choque de energia barata".

O ministro reclamou da demora do processo de adesão à OCDE, que exige enquadramento e pode demorar mais de dois ou três anos. "Por isso é importante um bom relacionamento com os parceiros e nos entendermos para favorecer (os acordos)", disse. "Parte dessas acusações são protecionismo disfarçado", frisou.

Em relação aos Estados Unidos, Guedes destacou que o Brasil "tem uma dinâmica própria" de crescimento. E, ao desviar do assunto, afirmou que, no passado, quando havia menos PhD no país, a economia cresceu mais durante "três a quatro décadas". "Agora cresce menos. Essa é uma informação perturbadora", disse Guedes, rindo. "O que deu errado foi o modelo econômico equivocado e os militares assistiram à queda brutal do ritmo de crescimento", emendou.

Ele voltou a fazer uma analogia com o processo de abertura da União Soviética. "A transição está incompleta até hoje. Fizemos a abertura política, a Glasnost, mas não fizemos a mesma flexibilização na economia e não conseguimos fazer a nossa Perestroika transformação do ambiente econômico", disse.

 

O ministro, ao apostar na retomada da agenda de reformas e reforçar que a economia está voltando a crescer em ritmo acelerado, afirmou que serão necessários novos marcos regulatórios para estimular os investimentos privados em concessões e em privatizações, em educação e em tecnologia. Ele reiterou que o avanço dessa agenda depende do "timing da política", mas assegurou que há mais ruídos nas relações com a base governista.

Finalmente, Guedes defendeu uma "taxação adequada" para melhorar o ambiente de negócios. Ao falar de uma reforma que acabe com o "manicômio tributário", por meio da simplificação, ele considerou que o governo "está fazendo a coisa certa", como resposta à criticas pelo atraso na agenda de reformas estruturais.